Princípios gerais no tratamento de feridas

 

1. Definir objetivos para o tratamento

Definir todos os objetivos para cada etapa do tratamento de uma ferida.
Considerar as feridas que queremos que cicatrizem e as que queremos apenas aliviar a dor ou o odor.

2. Utilização do processo TIME

TIME – Princípios da Preparação do Leito da Ferida

Observações clínicas Patofisiologia proposta Intervenções clínicas Efeitos das intervenções Resultados desejados
Tecidos não viáveis

A matriz defeituosa e os detritos celulares impedem a cicatrização

Desbridamento (episódico ou contínuo):

> Autolítico, cirúrgico, enzimático, mecânico ou biológico
> Agentes biológicos

Restauro do leito da ferida e da função das proteínas da matriz extracelular

Leito da ferida viável

Infeção ou inflamação

Alta concentração de bactérias ou inflamação prolongada

Citoquinas inflamatórias
 Actividade das proteases
 Actividade dos factores de crescimento

Remover o foco da inteção
Tópicos/sistémicos;

> Antimicrobianos
> Anti-inflamatórios
> Inibidores das proteases

Baixa concentração bacteriana ou inflamação controlada:

 Citoquinas inflamatórias
 Actividade das proteases
 Actividade dos factores de crescimento

Equilíbrio bacteriano e redução da inflamação

Moisture - Humidade desadequada

A dessecação atrasa a migração das células epiteliais

O excesso de fluidos causa maceração dos bordos da ferida

Aplicação de bons gestores do exsudado

Compressão, pressão negativa ou outros métodos de remoção de fluidos

Restauro da migração das células epiteliais, dessecação evitada

Edema e excesso de fluídos controlados, maceração evitada

Equilíbrio de humidade

Edge - Bordos da ferida — sem aproximação

Não migração dos queratinócitos

Células da ferida não reativas e anormalidades na matriz extra-celular ou actividade das proteases anormal

Reavaliar causas ou considerar terapias corretivas:

> Desbridamento
> Enxertos de pele
> Agentes biológicos
> Terapias complementares

Migração dos queratinócitos e reatividade das células da ferida
Restauro do perfil apropriado das proteases

Bordos da ferida a evoluir

Traduzido de Wounds UK - Wound bed preparation: TIME in practice

 

3. Cuidados especiais no desbridamento

Evitar exposição não intencionada de tecidos profundos, principalmente para prevenir osteomielites. Considerar zonas críticas como calcâneos, que na ausência de sinais inflamatórios e alívio efectivo da pressão pode libertar progressivamente uma placa de necrose. Feridas isquémicas também podem agravar se desbridadas.

4. Cuidados especiais no tratamento da infeção

Em caso de sinais inequívocos de infeção locais ou regionais encaminhar para cuidados médicos para antibioterapia adequada.
O uso de antimicrobianos tópicos deve ser bem ponderado e a duração do tratamento deve ser claramente planeada, reavaliando ao fim da primeira semana e suspendendo ao fim da segunda, preferencialmente.

5. Escolha do material mais adequado

Evitar o uso de compressas no leito da ferida a não que não exista alternativa nenhuma.
Seguir o protocolo de tratamento de feridas como guia geral, mas ponderar sempre todos os aspectos avaliados e desejados, nomeadamente a duração do tratamento, os objectivos estabelecidos e o material existente na unidade.

6. Seguimento da evolução

A rotatividade dos enfermeiros que realizam o tratamento a uma ferida deve ser minimizada para obter uma opinião sobre a evolução fundamentada na percepção.

7. Mudança frequente do material de tratamento

A realização de um tratamento deve pressupor que conhecemos o material que está a ser usado e que temos o mesmo disponível para dar a continuidade de cuidados necessária. A alteração de um tratamento deve ser bem fundamentada e registada.
Se não tivermos o material específico disponível considerar uma alternativa com princípios semelhantes. Trocar uma espuma de poliuretano que está a gerir bem o exsudado durante 3 dias por um pacote de compressas durante o mesmo periodo não é aceitável dado que vai causar proliferação bacteriana, acumulação de exsudado no leito da ferida, maceração dos bordos e destruição do tecido de epitelização, bem como dor e incómodo à pessoa. Se o penso não estiver repassado e se a pessoa tiver disponíbilidade para se deslocar no dia seguinte à unidade habitual para tratamento, deve fazê-lo.

8. Proteção dos bordos da ferida

Os bordos da ferida são o ponto essencial para a epitelização da mesma. Sem os bordos devidamente preparados, uma ferida complexa dificilmente vai cicatrizar.
A proteção pode ser feita de várias formas, nomeadamente com a utilização de produtos com absorção de exsudado vertical (para cima e não paralelamente ao leito), com bons gestores de exsudado (mantêm uma quantidade de exsudado ideal), com produtos barreira em spray e com uma limpeza adequada. 

9. Registos adequados

Os registos devem refletir a opinião do enfermeiro sobre a ferida, bem como conter todos os elementos essenciais à descrição de uma ferida: localização, dimensões, tecidos presentes, exsudado, bordos, pele periférica, odor, aspecto do membro, etc.

10. Planeamento adequado

Mais importante que documentar o tratamento realizado, é registar os objetivos estabelecidos e a evolução conhecida da ferida, principalmente quando se transfere a pessoa para os cuidados de um colega. Quando se inicia ou altera um tratamento, deve registar-se o que se pretende com esse tratamente e durante quanto tempo se vai realizar. Também deve ser marcada uma reavaliação para decidir novamente a manutenção ou não do tratamento, olhando retrospetivamente para a evolução, principalmente se a rotatividade dos enfermeiros for elevada.